Ensinar a Competir
À frente de uma reforma radical nas escolas
de Nova York, o professor diz que, quanto mais meritocracia, melhor fica o ensino

: Eric Nadelstern
O americano Eric Nadelstern, 57 anos, tem um cargo pouco usualpara alguém que trabalha com escolas públicas. Ele é CEO na Secretaria deEducação da cidade de Nova York, de onde comanda uma das reformas mais radicaisjá feitas tendo como alvo uma rede tão grande de escolas públicas. Desde 2002,quando o empresário Michael Bloomberg assumiu a prefeitura de Nova York, é deNadelstern a função de implantar nas escolas um novo modelo cujos pilares são acompetição e a recompensa baseada no mérito, tal qual no melhor setor privado.Os especialistas dizem que a reforma implementada por ele merece a atenção degovernantes, educadores e também dos pais, pelos bons resultados já colhidos.Resume Nadelstern: "Temos uma escola de século XXI com a cara do séculoXIX. Precisamos de coisa melhor". Com uma carreira de 35 anos em escolaspúblicas de Nova York, onde já deu aulas e exerceu todos os cargos possíveis nahierarquia, poucas pessoas entendem tanto do assunto quanto ele. Por essarazão, Nadelstern é convidado para dar palestras no mundo inteiro. Casado e paide uma filha, também professora, ele concedeu a VEJA a seguinte entrevista.
Veja – É mesmo possível transformarescolas de má qualidade em bons colégios ou é melhor fechá-las, como ameaçaMichael Bloomberg, prefeito de Nova York?
Nadelstern – É possível. O primeiro passo é mudarradicalmente a velha cultura que abomina a competição e a meritocracia noambiente escolar. A ausência de competição e de honra ao mérito é predominantenão só em colégios de países em desenvolvimento, como o Brasil, mas também emescolas americanas. Em quase quarenta anos como professor e pesquisador doassunto, sempre me causou perplexidade o fato de que, mesmo em um país como osEstados Unidos, alguns dos conceitos mais fundamentais na sociedade sejamtratados nas escolas como pecados capitais. É preciso superar esse ranço para,aí sim, começar a sonhar com melhorias no ensino.
Veja – Quais medidas se revelaram maiseficazes em sua própria experiência?
Nadelstern – De saída, concluímos que não dá para ter bom ensino semreunir na escola um grupo de profissionais obcecados por acertar. Isso é algoque certamente não aparece por geração espontânea, pelo idealismo puro esimples. Para contar com uma tropa de gente decidida a fazer de determinadaescola um exemplo de excelência, é preciso antes de tudo lhe dar incentivosconcretos, tal qual ocorre em uma empresa privada. Não me refiro aqui apenas aoaumento de salário, que também ajuda, mas sobretudo a uma política de premiarcom mais dinheiro diretores e professores que alcancem os melhores resultados.A Coréia do Sul já fez isso com sucesso e estamos colocando a idéia em práticaagora em Nova York. Com a velha isonomia salarial, passamos uma mensagemequivocada do menor esforço, segundo a qual dar a alma ao trabalho não faznenhum sentido. Queremos estimular justamente o contrário.
Veja – Isso gerou protestos nasescolas?
Nadelstern – Às vezes. Mas o fato é que se foi o tempodos relatórios subjetivos produzidos por burocratas do ensino, que dependiam dohumor do avaliador. Chamavam atenção pelo festival de adjetivos e pela escassezde substantivos. Em sociedades modernas tão afeitas às estatísticas, não há porque não aferir a qualidade dos professores atribuindo-lhes notas numa escalanumérica. As pessoas podem reclamar, mas o número é algo irrefutável. Aplicamosprovas aos alunos. Se a classe de um professor vai mal numa série de testes, éum sinal de que ele está falhando. Por outro lado, quando há um consistenteavanço nas notas, temos em mãos um poderoso indicador do seu talento aolecionar. São essas as escolas que, no caso de Nova York, recebem bônus noorçamento. Cabe ao diretor fazer o rateio do prêmio, tendo pesado o mérito decada um para o resultado final. Ele é o gerente de fato.
Veja – Que tipo de interferência doestado, afinal, contribui para o progresso de uma escola?
Nadelstern – Como em outros setores da economia, tambémem uma rede de escolas públicas não faz sentido que o governo seja otodo-poderoso, a quem elas devam consultar sobre a compra de uma borracha ou umvazamento no teto. No novo sistema, os diretores recebem dinheiro da prefeiturae são livres para administrar a escola como julgarem melhor. Como esperar queos diretores sejam gestores tão eficazes quanto os das grandes empresas se osprivamos de poder? É ilógico. Por essas e outras, as escolas públicasamericanas costumam ser lembradas pelos magos da administração como exemplos deineficiência e atraso. Com a autonomia, a história é outra. Antes dela, apenas13% do dinheiro que deveria chegar às escolas seguia esse destino. O restanteera consumido com a burocracia ou desaparecia nos ralos da corrupção. Depoisque a gestão ficou nas mãos dos diretores, 70% do dinheiro está nas escolas. Ameta é chegar a 90%. Com isso, estou convencido de que o estado não tem talentonem o dever de intervir no miúdo, mas é, sim, seu papel estabelecer um conjuntoeficiente de regras para estimular o bom ensino – e, claro, cobrar osresultados.
Veja – Como exatamente o governo podecobrar bom desempenho de uma escola?
Nadelstern – Damos a autonomia e, em troca,o diretor assina um contrato com a prefeitura em que se compromete a fazer seusestudantes alcançarem uma determinada média de notas, a reduzir a evasão, acombater a repetência, e por aí vai. Se as escolas não cumprem tais metas,recebem menos dinheiro do que as demais que mostram avanço nos indicadores. Nasescolas em que o resultado é sempre péssimo, não há saída senão demitir osdiretores. No mundo privado, não causa espanto que alguém de alto escalão sejamandado embora por incapacidade de gestão. Na escola pública, isso ainda évisto como uma injustiça. Para mim, é mais um sinal de que as escolas têm muitoa aprender com as empresas.
Veja – Como atrair os melhoresprofissionais para as escolas públicas?
Nadelstern – A política de dar bônus por desempenho éuma medida que, por si só, já enche os olhos dos bons profissionais do mercado.Evidentemente, um ambiente de trabalho em que ficarão equiparados àmediocridade não lhes é atraente. Outro ponto fundamental, de novo, é o fato deas escolas serem autônomas, e não mais tão dependentes do estado. É claro queum bom executivo se sentirá mais desafiado com esse cenário. Também é possívelfisgar os melhores profissionais ao colocá-los em funções estratégicas pelasquais serão bem remunerados. Estou certo de que um de nossos trunfos foi terconseguido recrutar alguns dos melhores acadêmicos de universidades comoHarvard e Princeton e, ainda que em menor proporção, trazer gente do setorprivado para as escolas. Alguns deles estão dando aulas de ciências em escolaslocalizadas em áreas menos nobres e mais violentas. Ninguém em sã consciênciahoje pode abrir mão de um bom ensino de ciências, senão vai ficar para trás. Étambém contra isso que estamos lutando ao contratar os melhores acadêmicos dopaís.
Veja – O que seus estudos e a própriaexperiência mostram sobre o combate ao crime nas escolas?
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Nadelstern – Esse está longe de ser um problemaexclusivo da cidade de Nova York, tampouco de países pobres, como o Brasil.Tenho observado nas últimas décadas o modo como os diversos educadores egovernantes lidam com a criminalidade no ambiente escolar e cheguei a duasconclusões sobre o que ajuda a erradicá-la. Primeiro, é preciso adotar medidasde segurança na escola, ainda que isso pareça estranho a algumas pessoas.Defendo minha posição com base em fatos, e não em ideologia. Em escolas de NovaYork antes dominadas por gangues, a violência despencou desde a década de 90,quando foram instalados detectores de metais na entrada e elas recrutaramagentes de segurança treinados para lidar com essa situação. Em outra frente,uma medida eficaz de mais longo prazo é reduzir o tamanho das classes e daspróprias escolas.
Veja – O senhor acha viável transformarum sistema público de escolas gigantes e classes lotadas em uma rede depequenos colégios?
Nadelstern – Esse é um processo que podeconsumir décadas, mas, sim, está no campo do possível. Defendo isso com base empesquisas segundo as quais, de todos os fatores, o tamanho da escola é o quemais influencia as chances de um aluno em Nova York concluir o ensino médio echegar à universidade. Não estou dizendo que todas as escolas de grande portesão ruins, nem que as pequenas são sempre oásis de bom ensino, mas, na média, éessa a realidade – e os pais devem estar informados sobre isso ao matricularseus filhos. Do ponto de vista prático, é evidente que não é viável para umgoverno sair por aí comprando terreno para construir mais escolas. É possível,no entanto, transformar uma escola grande em várias pequenas, fazendo uso domesmo prédio. Cada uma delas passa a ter diretor próprio, uma equipe deprofessores e funcionamento de escola pequena.
Veja – E por que exatamente isso ébom?
Nadelstern – Em primeiro lugar, porque numambiente menor os pais passam a participar mais, segundo nos mostra umapesquisa sobre o assunto. Hoje as famílias estão, em geral, alheias ao que sepassa na escola. De um lado, porque não lhes sobra tempo. De outro, porque têm dificuldadeem ser recebidas nas escolas – o que só atrapalha. Outro ponto a favor dasescolas menores é que, nelas, os professores passam a conhecer um pouco melhoras necessidades de seus alunos. Uma de minhas cruzadas é justamente criar noscolégios uma nova cultura, de modo que as aulas não sejam tão dissociadas dasreais demandas dos estudantes.
Veja – Como aproximar uma escola darealidade de seus alunos?
Nadelstern – Insisto, de novo, na necessidade deaplicar provas aos estudantes, nesse caso com o objetivo de saber o detalhe dodetalhe sobre o que eles aprenderam até aquele momento do ano. Criamos seistestes anuais com essa finalidade. Isso mesmo: a idéia é fazer monitoramentopermanente. Acredito que só aí é possível ao professor dar uma boa aula, maisde acordo com as necessidades dos alunos. Infelizmente, o que observo sobre amaioria das escolas nos Estados Unidos é que, em se tratando de ensino, ofertae demanda ainda andam, basicamente, separadas. O professor fala sobre Platãopara estudantes que desconhecem os fundamentos da Grécia antiga. Em aulas sobrea I Guerra, quase ninguém sabe onde fica a Europa. Não tem como dar certo. Seos alunos ignoram o básico, vamos lhes dar primeiro isso.
Veja – De que modo o senhor acha quedar prêmios em dinheiro aos melhores estudantes, como ocorre em Nova York, podeajudar a melhorar esse cenário?
Nadelstern – A competição empurra as pessoaspara a frente. Nas escolas, as crianças a encaram como uma gincana, na qual,para sair vencedoras, precisam estudar mais. Esse é o objetivo. Os alunosgostam. Os pais adoram. Mas sindicalistas e intelectuais lunáticos reclamam. Sea sociedade como um todo cultua os rankings, não vejo por que ser diferente noambiente escolar, no qual supostamente se dá uma espécie de treino para a vidareal. Premiar é, afinal, uma maneira de jogar luz sobre um conjunto de bonshábitos que devem servir de modelo para os outros.
Veja – Como atrair para as escolaspúblicas 350 milhões de dólares do setor privado, a exemplo do que ocorreu emNova York?
Nadelstern – Lição número 1: não dá para bater à portade Bill Gates com um diagnóstico de 1?000 páginas sobre a educação pública eesperar que ele tenha tempo e disposição para lançar-se numa longa e enfadonhadiscussão teórica. O que funciona é chegar com um projeto curto, de execuçãopalpável e custos definidos. Essa é a linguagem do mercado. Repetimos semprenos Estados Unidos que a diversidade é a pedra fundamental de uma sociedadelivre e democrática – e, por essa razão, estamos em busca de perfis distintosde escola. Ao passar o chapéu nas empresas, comecei a falar em um novo"portfólio" de colégios, e não mais em diversidade. Funcionou. Umpaís mais pobre como o Brasil certamente poderia se beneficiar mais desse tipode prática.
Veja – Apesar de todos esses esforços,os indicadores de ensino em Nova York ainda são ruins...
Nadelstern – Os resultados na educação sãosempre lentos, mas acho que, diante disso, avançamos a uma velocidade bastanterazoável. Há cinco anos, 50% dos estudantes concluíam o ensino básico em NovaYork. Hoje, são quase 60%. Ou seja: 20% mais gente. É um indicador de queseguimos na direção correta. Estou bastante atento ao que outros países estãofazendo para melhorar. Essa é uma obrigação de qualquer homem público no mundoglobalizado. Meu diagnóstico geral é que as escolas ainda têm a cara do séculoXIX em sociedades do século XXI. Elas continuam afeitas à decoreba,encaixotadas em grades curriculares ultrapassadas e incapazes de preparar ascrianças para olhar os problemas da atualidade de modo abrangente e desprovidode preconceito. Os pais devem cobrar, sim, porque, no que diz respeito à escolapública, seus filhos são reféns de um serviço que se situa entre o mediano e oruim; o velho e o antiquado. Por tudo isso, estou convicto de que as escolasprecisam de um bom banho de modernidade.
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